Cidades inteligentes, quais são os desafios, oportunidades e exemplos em Portugal
As cidades inteligentes, ou smart cities, deixaram de ser uma visão futurista para se tornarem uma realidade crescente em Portugal. Municípios de diferentes dimensões e regiões estão a implementar soluções tecnológicas avançadas para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, otimizar a gestão de recursos, aumentar a eficiência energética e promover um desenvolvimento urbano mais sustentável.
Desde plataformas integradas de gestão urbana que centralizam dados em tempo real até projetos-piloto de mobilidade inteligente e sustentável, Portugal tem vindo a posicionar-se como um território onde a inovação digital se cruza com a necessidade de responder a desafios ambientais, sociais e económicos concretos. O Fundão e Lisboa surgem como dois exemplos paradigmáticos desta transformação, cada um à sua escala, demonstrando que ser uma cidade inteligente não é apenas uma questão de tecnologia, mas de visão estratégica, envolvimento comunitário e capacidade de adaptação.
Neste artigo, exploramos o conceito de cidade inteligente, os desafios e oportunidades que se colocam aos municípios portugueses, os instrumentos de financiamento disponíveis no âmbito da Estratégia Nacional de Territórios Inteligentes (ENTI) e apresentamos casos concretos de implementação que mostram como a transformação digital está a acontecer no terreno.
O que são cidades inteligentes?
Uma cidade inteligente é um território que utiliza tecnologias de informação e comunicação (TIC), Internet das Coisas (Internet of Things, IoT), big data e inteligência artificial para recolher, processar e utilizar dados em tempo real, com o objetivo de melhorar a gestão urbana, os serviços prestados aos cidadãos e a sustentabilidade ambiental.
Ao contrário da visão redutora que associa smart cities apenas a tecnologia, o conceito engloba uma abordagem integrada que inclui mobilidade sustentável, eficiência energética, gestão inteligente de águas e resíduos, segurança urbana, participação cívica, inclusão social e desenvolvimento económico.

Figura 1 – Uma cidade verdadeiramente inteligente não é apenas aquela que tem sensores e plataformas digitais, mas aquela que usa essa infraestrutura tecnológica para tomar decisões mais informadas, promover a qualidade de vida e garantir equidade no acesso a serviços. Banco de Imagens FreePik
Em Portugal, a transformação em direção a territórios inteligentes está enquadrada pela Estratégia Nacional de Territórios Inteligentes (ENTI), aprovada em dezembro de 2023, que estabelece um roteiro para que o país se torne uma nação digital e inteligente, com uma rede de territórios conectados que promovam desenvolvimento económico, inclusivo e sustentável.
Estratégia Nacional de Territórios Inteligentes
A ENTI tem como objetivo principal transformar Portugal numa rede de territórios inteligentes, promovendo serviços interoperáveis centrados no cidadão e nas empresas, e contribuindo para uma tomada de decisão mais fundamentada e uma gestão inteligente dos recursos essenciais. A estratégia prevê a criação de Planos de Ação Local (PAL) e Planos de Ação Regional (PAR), que são condição necessária para que municípios ou entidades intermunicipais possam beneficiar de financiamento para aquisição ou evolução de Plataformas de Gestão Urbana (PGU), plataformas verticais ou sensores.
O financiamento para a implementação da ENTI é assegurado através de recursos locais, regionais e nacionais, contando ainda com apoio de fundos europeus, designadamente o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e os programas do Portugal 2030. A execução das medidas depende da disponibilidade de dotação orçamental por parte das entidades envolvidas, com o objetivo comum de tornar Portugal um país inteligente.
Para apoiar os municípios na elaboração dos seus Planos de Ação, foi disponibilizada uma Framework para Planos de Ação Local e Regional de Territórios Inteligentes, que constitui um guia detalhado com foco na adaptação das recomendações da ENTI ao contexto específico de cada território. Esta abordagem descentralizada e adaptativa reconhece que os desafios e oportunidades variam significativamente entre regiões metropolitanas como Lisboa e municípios de média dimensão como o Fundão.
Lisboa: Plataforma de Gestão Inteligente e liderança nacional
Lisboa é o exemplo mais desenvolvido de cidade inteligente em Portugal, apostando numa abordagem integrada e baseada em dados para gestão urbana. O pilar tecnológico desta transformação é a Plataforma de Gestão Inteligente de Lisboa (PGIL), que integra diversos sistemas de informação dos serviços municipais e de entidades externas, sendo capaz de receber, apresentar e tratar um grande volume de dados em tempo real.
A PGIL suporta processos de trabalho e integra ferramentas de analítica capazes de apoiar o processo de decisão da Câmara Municipal de Lisboa, desde o nível estratégico ao nível operacional. Embora seja uma plataforma de acesso reservado aos utilizadores internos do município, os seus impactes são sentidos pelos cidadãos através de serviços mais eficientes, resposta mais rápida a ocorrências e melhor planeamento urbano.
Um dos casos de uso mais relevantes da PGIL é a gestão da segurança e proteção civil. A plataforma permite ao Serviço Municipal de Proteção Civil monitorizar a cidade em tempo real, gerir ocorrências diárias, planear e gerir grandes eventos e controlar os recursos no terreno. Com recurso à tecnologia IoT e big data, é possível garantir a segurança da população, prevenindo riscos e assegurando uma resposta rápida e proativa a emergências.

Figura 2 – Lisboa desenvolveu também a app Lisboa.24, que fornece informações úteis e em tempo real sobre a cidade, na sua maioria provenientes da PGIL. Esta aplicação funciona como interface entre a plataforma de gestão e os cidadãos, democratizando o acesso a dados urbanos e reforçando a transparência. Fonte Imagem: App Store Apple
Outro instrumento estratégico é o Lisbon Urban Data Lab, resultado de parcerias entre o município e várias instituições de ensino superior e investigação científica. O objetivo é promover e permitir a utilização de dados gerados na cidade de Lisboa para criar soluções analíticas capazes de resolver problemas reais e melhorar os serviços prestados aos cidadãos e a eficiência dos serviços municipais. Desde a sua criação em 2019, foram assinados 19 protocolos de colaboração com diferentes instituições, envolvendo mais de 170 investigadores e estudantes universitários em mais de 30 desafios lançados.
Lisboa participa ainda em projetos europeus como o Urban Co-Creation Data Lab (UCD Lab), que teve como objetivo criar instrumentos para apoiar a tomada de decisão do município, de forma a prestar serviços de elevada qualidade aos cidadãos nas áreas de segurança, emergência, gestão operacional e planeamento.
Fundão: mobilidade inteligente e inovação à escala humana
O Fundão, município do distrito de Castelo Branco, é um dos exemplos mais inspiradores de como cidades de média dimensão podem ser pioneiras em inovação e transformação digital. Reconhecido pela UNESCO como Cidade de Aprendizagem em 2024, o Fundão tem vindo a posicionar-se como laboratório vivo de soluções inteligentes, combinando inovação tecnológica, empreendedorismo e foco na melhoria da qualidade de vida dos cidadãos.
Um dos projetos mais emblemáticos é o Route 25, uma das 53 Agendas Mobilizadoras do PRR, que tem como objetivo posicionar Portugal na vanguarda da tecnologia de transporte humano e sustentável. O projeto foca-se no desenvolvimento de soluções avançadas de mobilidade assistida, autónoma e conectada, explorando tecnologias inovadoras para tornar as cidades mais inteligentes e eficientes.
O Fundão integra o Demonstrador de Larga Escala do Route 25, que engloba três cidades (Porto, Aveiro-Ílhavo e Fundão) e grandes infraestruturas de mobilidade, incluindo autoestradas e nós complexos. No Fundão, estão a ser testadas soluções para carregamento de veículos elétricos, estacionamento inteligente, sensorização urbana e mobilidade conectada.
A intervenção, iniciada em janeiro de 2025, visa modernizar o espaço urbano através de:
- Reorganização do estacionamento para maior eficiência e acessibilidade
- Sensorização em locais estratégicos como contentores de resíduos ou sumidouros para monitorizar e fornecer dados em tempo real
- Postes de iluminação com carregamento para veículos elétricos incorporado, promovendo a mobilidade sustentável
- Iluminação LED multifuncional, garantindo eficiência energética e segurança
- Integração com plataformas de mobilidade urbana, facilitando a gestão do espaço
Segundo o antigo presidente da Câmara Municipal do Fundão, Paulo Fernandes, o município não é apenas um agente que cria condições para o desenvolvimento de ecossistemas empreendedores e tecnológicos, mas também executor direto de inovação. O objetivo é “que a transferência da nossa inovação, do desenvolvimento tecnológico em Portugal, de facto, chegue ao mercado” e faça diferença no quotidiano das pessoas.

Figura 3 – O autarca destacou que as novas soluções em teste utilizam “abordagens mais integradas, com tecnologias mais amenas para aquilo que é a vida concreta do cidadão”, conseguindo “com os mesmos recursos, às vezes com os mesmos custos, captar muito mais dados que são importantes para a gestão da cidade”. Fonte Imagem: Facebook Jornal do Fundão
Além do Route 25, o Fundão participa no Portugal Smart Cities Summit 2025, onde apresenta projetos como a plataforma de medição e compensação carbónica e o programa de fidelização para estímulo da economia local. O município integra também o projeto SenForFire, focado em redes rentáveis de sensores sem fios para prevenção e deteção precoce de incêndios florestais.
O Plano de Ação do Fundão como cidade inteligente, desenvolvido no âmbito do projeto europeu URBACT Metacity, integra tecnologias de gémeo digital e realidade virtual (VR), demonstrando uma visão estratégica de longo prazo orientada pela inovação.
City as a Platform: tecnologia ao serviço da gestão urbana
Uma das soluções tecnológicas que tem vindo a ganhar relevância em Portugal é o City as a Platform (CaaP), uma Plataforma de Gestão Urbana que integra vários indicadores essenciais para a gestão inteligente de um território. Entre os principais domínios abrangidos estão mobilidade urbana, iluminação pública, gestão de águas, urbanismo e ambiente.
O objetivo desta plataforma é aumentar a autonomia dos municípios e ajudá-los a tomar decisões baseadas em dados em tempo real. Ao integrar diferentes sistemas e fontes de dados numa única interface, o CaaP permite uma visão holística da cidade, facilitando a identificação de problemas, a priorização de intervenções e a avaliação de impactes de políticas públicas.
Este tipo de plataforma é particularmente relevante no contexto da ENTI, uma vez que os municípios que desenvolvam Planos de Ação Local podem beneficiar de financiamento para aquisição ou evolução de Plataformas de Gestão Urbana, tornando soluções como o CaaP acessíveis a municípios de diferentes dimensões.
Desafios: infraestrutura, competências e equidade
Apesar dos avanços, a transformação digital dos territórios portugueses enfrenta desafios significativos. O primeiro é a desigualdade de capacidade técnica e financeira entre municípios. Enquanto Lisboa dispõe de recursos humanos especializados, orçamento e parcerias institucionais robustas, muitos municípios de pequena e média dimensão enfrentam dificuldades em recrutar competências digitais, em financiar a aquisição de tecnologia e em garantir a manutenção e atualização contínua de sistemas.
A interoperabilidade entre sistemas é outro desafio crítico. Plataformas, sensores e aplicações de diferentes fornecedores nem sempre comunicam eficazmente entre si, gerando silos de dados e dificultando a integração necessária para uma gestão verdadeiramente inteligente.

Figura 4 – A literacia digital da população é também determinante. De pouco serve ter plataformas avançadas se os cidadãos não têm competências para aceder aos serviços digitais ou se sentem excluídos por não dominarem a tecnologia. Fonte Imagem: Banco de Imagens Freepik.
Por fim, a sustentabilidade financeira dos projetos é uma preocupação constante. Muitas iniciativas dependem de financiamento europeu pontual (LIFE, PRR, Portugal 2030), mas a manutenção, atualização e expansão de infraestruturas digitais exige compromissos orçamentais de longo prazo que nem sempre estão assegurados.
Oportunidades: inovação, eficiência e sustentabilidade
As oportunidades associadas às cidades inteligentes são vastas. A utilização de dados em tempo real permite otimizar a gestão de recursos, reduzindo desperdícios de água, energia e tempo. A monitorização contínua de infraestruturas críticas permite antecipar falhas e reduzir custos de manutenção. A mobilidade inteligente contribui para reduzir emissões de gases com efeito de estufa e congestionamento urbano.
As cidades inteligentes promovem também maior transparência e participação cívica, ao disponibilizarem dados abertos e ferramentas que permitem aos cidadãos acompanhar a ação municipal, reportar problemas e contribuir para a melhoria dos serviços.
Do ponto de vista económico, a transformação digital dos territórios cria oportunidades de negócio e emprego qualificado nas áreas de tecnologia, dados, sensores, cibersegurança e consultoria. Municípios como o Fundão demonstram que é possível atrair talento, fixar população jovem e dinamizar ecossistemas de inovação através de uma aposta estratégica em tecnologia e empreendedorismo.
Reflexão final: cidades inteligentes para quem?
A transformação de Portugal numa rede de territórios inteligentes está em curso, mas o sucesso desta transição dependerá da capacidade de garantir que a tecnologia serve as pessoas, e não o contrário. Lisboa e Fundão mostram que é possível, a escalas diferentes, utilizar dados, sensores e plataformas digitais para melhorar a qualidade de vida, otimizar recursos e promover sustentabilidade.
A ENTI e os instrumentos de financiamento disponíveis oferecem oportunidades reais para que mais municípios se juntem a este movimento. Mas a tecnologia, por si só, não resolve problemas. É preciso visão estratégica, envolvimento das comunidades, formação contínua e compromisso político de longo prazo.
As cidades inteligentes do futuro serão aquelas que conseguirem equilibrar inovação tecnológica com inclusão social, eficiência com equidade, e dados com cidadania. Portugal tem demonstrado que está no caminho certo. Resta assegurar que este caminho se expande, se consolida e beneficia todos os territórios e todos os cidadãos.
Referências:
Câmara Municipal de Lisboa, 2024. Lisboa Inteligente.
URL: https://lisboaaberta.cm-lisboa.pt/index.php/pt/lisboa-inteligente [Acedido em janeiro de 2026]
Câmara Municipal do Fundão, 2024. Fundão no Portugal Smart Cities Summit 2025 com soluções inovadoras ao serviço da comunidade.
URL: https://cm-fundao.pt/index.php/home/noticias/1092-fundao-no-portugal-smart-cities-summit-2025-com-solucoes-inovadoras-ao-servico [Acedido em janeiro de 2026]
Câmara Municipal do Fundão, 2025. Projeto Route 25 impulsiona mobilidade inteligente no Fundão.
URL: https://www.cm-fundao.pt/index.php/home/noticias/1006-projeto-route-25-impulsiona-mobilidade-inteligente-no-fundao [Acedido em janeiro de 2026]
City as a Platform, 2025. O City as a Platform marcou presença no Portugal Smart Cities Summit 2025.
URL: https://www.city-platform.com/pt/post/portugal-smart-cities-summit-2025 [Acedido em janeiro de 2026]
Diário da República, 2023. Estratégia Nacional de Territórios Inteligentes.
URL: https://files.diariodarepublica.pt/1s/2023/12/24200/0005600076.pdf [Acedido em janeiro de 2026]
Facebook – Município do Fundão, s.d. Participação no Smart City Expo World Congress – SenForFire.
URL: https://www.facebook.com/MunicipiodoFundao/posts/ [Acedido em janeiro de 2026]
Mosaico.gov.pt, 2025. Territórios Inteligentes Área Técnica.
URL: https://mosaico.gov.pt/areas-tecnicas/territorios-inteligentes [Acedido em janeiro de 2026]
RTP Notícias, 2024. Fundão testa projeto de mobilidade com estacionamento e carregamento inteligente.
URL: https://www.rtp.pt/noticias/economia/fundao-testa-projeto-de-mobilidade-com-estacionamento-e-carregamento-inteligente_n1599325 [Acedido em janeiro de 2026]
Smart Cities Portugal, 2024. UNESCO escolhe Fundão como Cidade de Aprendizagem.
URL: https://smart-cities.pt/noticias/unesco-escolhe-fundao-como-cidade-de-aprendizagem-19-02/ [Acedido em janeiro de 2026]
URBACT, 2026. Plano de Ação – Fundão Metacity.
URL: https://urbact.eu/sites/default/files/2026-01/IAP%20Metacity%20fundao_PT.pdf [Acedido em janeiro de 2026]
Banco de imagens Freepik [Acedido em janeiro de 2026]