O abutre-preto em Portugal, uma referência na conservação.
Em 2024, escrevemos um artigo sobre o abutre-preto, falámos sobre esta espécie emblemática e a sua importância ecológica. Destacámos o papel fundamental dos abutres como agentes de limpeza dos ecossistemas, removendo carcaças de animais mortos e evitando a propagação de doenças e apresentámos o projeto LIFE Aegypius Return como motor da recuperação da espécie em território nacional.
Os resultados da época de reprodução de 2025, divulgados em dezembro, trouxeram novidades significativas: o número de casais de abutre-preto (Aegypius monachus) em Portugal continua a crescer, ultrapassando já os 120 casais, o triplo dos registados em 2022. Este crescimento, face aos anos anteriores, consolida uma das histórias de conservação mais notáveis do país e reforça a importância de ações coordenadas, baseadas em ciência e envolvimento de múltiplos setores.
Hoje, analisamos a evolução do estado de conservação do abutre-preto em Portugal, desde a sua extinção como espécie reprodutora nos anos 70 até ao regresso recente, explorando os desafios, as ameaças persistentes e as perspetivas para o futuro desta espécie classificada como Criticamente em Perigo.
Da extinção ao regresso, as décadas de ausência
O abutre-preto desapareceu de Portugal como espécie reprodutora no final da década de 1970, vítima de perseguição humana, envenenamento, perda de habitat e escassez de alimento devido ao declínio da pastorícia extensiva e ao abandono de carcaças no campo. Durante cerca de 40 anos, a espécie apenas visitava o território português de forma irregular, com indivíduos provenientes de Espanha, mas sem nidificar.

Figura 1 – O regresso começou de forma pouco notável em 2010, com os primeiros registos de tentativas de nidificação no Douro Internacional. Fonte de Imagem: Website “biodiversidade.com”
Em 2012, confirmou-se a primeira reprodução bem-sucedida em território português desde a extinção, marcando o início de uma recolonização natural apoiada por esforços de conservação. Este processo foi facilitado pela proximidade de colónias espanholas robustas, pela melhoria das condições de habitat e pelo trabalho contínuo de organizações não-governamentais, técnicos e autoridades públicas.
Crescimento populacional: como em três anos o número de casais passou de 40 a mais de 120
Os números recentes ilustram uma recuperação impressionante, sobretudo a partir de 2022, ano em que arrancou o projeto LIFE Aegypius Return. Nesse ano, estimava-se a existência de apenas 40 casais reprodutores, distribuídos por quatro colónias: Douro Internacional, Serra da Malcata, Tejo Internacional e Herdade da Contenda (Baixo Alentejo).
Em 2024, esse número praticamente triplicou, com entre 108 a 116 casais registados e 48 crias voadoras. Foi também descoberta uma quinta colónia, nos concelhos de Vidigueira e Portel, considerada de grande relevância para a conservação da espécie no Alentejo.
Na época de reprodução de 2025, que se estende de janeiro a início de setembro, nidificaram entre 119 e 126 casais, distribuídos pelas cinco colónias conhecidas: entre 68 e 72 no Tejo Internacional, entre 16 e 18 no Baixo Alentejo, 15 na Reserva Natural da Malcata, entre 12 e 13 na Vidigueira/Portel e oito no Douro Internacional. Destes casais, resultaram 56 crias voadoras.
É importante notar que entre 25 ou 26 destes casais e 16 das crias pertencem a ninhos localizados em território espanhol, uma vez que várias colónias são transfronteiriças e a conservação do abutre-preto funciona como um esforço ibérico coordenado.
Apesar do crescimento contínuo, os responsáveis pelo LIFE Aegypius Return salientam que em 2025 a população cresceu “a um ritmo mais moderado” comparativamente aos anos anteriores, com o sucesso reprodutor a diminuir ligeiramente e a espécie a demonstrar vulnerabilidade face a várias ameaças.
LIFE Aegypius Return, o motor da recuperação
O projeto LIFE Aegypius Return, iniciado no final de 2022 e com duração até 2027, tem como objetivo de longo prazo garantir um estado de conservação favorável para o abutre-preto em Portugal, consolidando, expandindo e acelerando a recolonização natural.

Figura 2 – A curto prazo, o projeto ambicionava duplicar a população reprodutora, passando de 40 casais em quatro colónias para pelo menos 80 casais em cinco locais até ao final do projeto. Fonte de Imagem: Website LPN, Artigo “População de abutre-preto cresce timidamente em 2025” Publicado a 04/12/2025.
Este objetivo foi ultrapassado já em 2024, demonstrando a eficácia das ações implementadas. Entre as principais intervenções do projeto destacam-se:
- Gestão e melhoria de 570 hectares de habitat de nidificação e criação de 25 km de faixas corta-fogo para aumentar a resiliência face a incêndios florestais e alterações climáticas.
- Implementação de novos Centros de Alimentação de Aves Necrófagas (CAAN) em Portugal e Espanha, garantindo disponibilidade regular de alimento.
- Estabelecimento de pelo menos 55 áreas de alimentação não vedadas na área de distribuição do abutre-preto em Portugal, cobrindo explorações pecuárias extensivas.
- Reforço da capacidade das autoridades portuguesas para combater o envenenamento e crimes contra a vida selvagem, incluindo a criação de duas novas brigadas cinotécnicas antiveneno.
- Melhoria do conhecimento sobre o impacto de contaminantes (chumbo e medicamentos veterinários) no abutre-preto e desenvolvimento de mecanismos de mitigação.
- Sensibilização de agentes-chave (veterinários, caçadores, agricultores, pastores) sobre os impactes de contaminantes e boas práticas de conservação.
O projeto pretende ainda reduzir o estatuto de conservação nacional do abutre-preto de “Criticamente em Perigo” para “Em Perigo” até ao final de 2027, o que constituirá um reconhecimento formal da melhoria das condições populacionais e ecológicas.
Ameaças persistentes, entre incêndios, envenenamento e contaminação
Incêndios florestais constituem uma das principais ameaças. Em 2024, um grande incêndio no Douro Internacional destruiu completamente dois ninhos e afetou outros seis em diferentes graus, confirmando-se a morte de duas das cinco crias nascidas, com suspeita de morte de outras duas. Este evento teve um impacte devastador numa colónia que havia crescido até oito casais desde a sua fundação em 2012. Está em curso um plano de emergência para recuperar o habitat e sustentar a manutenção da colónia.

Figura 3 – Apesar dos progressos, o abutre-preto continua a enfrentar ameaças significativas que comprometem a consolidação da sua recuperação. Fonte de Imagem: Website SPEA (Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves)
Envenenamento ilegal, tanto direto (isco envenenado) como indireto (ingestão de animais envenenados), continua a ser uma causa significativa de mortalidade. A utilização de substâncias tóxicas para controlo de predadores, embora proibida, persiste em algumas regiões, representando um risco constante para aves necrófagas.
Contaminação por chumbo, proveniente de munições de caça, e por resíduos de medicamentos veterinários presentes em carcaças de animais domésticos constituem ameaças menos visíveis, mas igualmente graves. A ingestão de chumbo causa saturnismo (intoxicação), afetando o sistema nervoso e reprodutivo das aves, enquanto certos anti-inflamatórios veterinários (como o diclofenac) podem ser letais para abutres.
Escassez de alimento continua a ser um desafio estrutural. O declínio da pastorícia extensiva e as restrições sanitárias ao abandono de carcaças no campo limitam a disponibilidade natural de alimento, tornando essenciais os Centros de Alimentação de Aves Necrófagas (CAAN) geridos por entidades de conservação.
Perspetivas futuras
A trajetória do abutre-preto em Portugal é, simultaneamente, uma história de sucesso e um alerta sobre a fragilidade dos processos de recuperação de espécies ameaçadas. Os números de 2025 confirmam que a espécie está em expansão, mas o ritmo mais moderado de crescimento e a diminuição ligeira do sucesso reprodutor indicam que a população ainda não atingiu um estado de estabilidade.
Para consolidar o regresso do abutre-preto, será necessário manter e reforçar as ações de conservação implementadas pelo LIFE Aegypius Return e garantir a sua continuidade após 2027. Isto inclui a gestão ativa de habitat, a disponibilização regular de alimento através de CAAN e áreas de alimentação não vedadas, o combate eficaz ao envenenamento e a mitigação dos impactes de contaminantes.
A criação de novas colónias e o reforço da conectividade entre as existentes, incluindo as populações espanholas, são fundamentais para aumentar a resiliência da população face a eventos extremos (como os incêndios de 2024) e para garantir uma base genética saudável.
A classificação do abutre-preto como “Criticamente em Perigo” em Portugal reflete ainda a vulnerabilidade da espécie, mas os progressos alcançados em apenas três anos sugerem que a transição para o estatuto “Em Perigo” é realista e alcançável até ao final do projeto. Esta melhoria de estatuto, longe de ser apenas simbólica, representa um reconhecimento formal de que a espécie está menos próxima da extinção, embora continue a necessitar de medidas de conservação ativas.
Lições de resiliência e compromisso coletivo
A evolução do estado de conservação do abutre-preto em Portugal é uma das histórias de conservação mais inspiradoras do país. De uma espécie extinta como reprodutora há quatro décadas, o abutre-preto passou a mais de 120 casais nidificantes em 2025, graças a um esforço coordenado de organizações não-governamentais, instituições públicas, investigadores, proprietários rurais e cidadãos.
Esta recuperação demonstra que é possível inverter declínios populacionais graves quando existe vontade política, financiamento adequado, base científica sólida e envolvimento ativo das comunidades locais. O projeto LIFE Aegypius Return, financiado pela União Europeia e implementado por múltiplos parceiros, é um exemplo de como a conservação funciona quando há colaboração transfronteiriça, objetivos claros e ações concretas no terreno.
Mas a história do abutre-preto é também um lembrete de que a conservação não é linear nem garantida. Os incêndios de 2024 no Douro, a persistência do envenenamento ilegal e os desafios estruturais relacionados com a disponibilidade de alimento mostram que ameaças antigas e novas continuam a pressionar a espécie. A vigilância, a adaptação das estratégias e o investimento contínuo são essenciais para evitar retrocessos.
Nos próximos anos, será determinante garantir que os avanços alcançados se traduzam em consolidação populacional e melhoria formal do estatuto de conservação. A passagem de “Criticamente em Perigo” para “Em Perigo” não é um ponto de chegada, mas um passo intermédio num caminho longo rumo a um estado de conservação favorável. Até lá, cada casal que nidifica, cada cria que sobrevoa as serras portuguesas e cada hectare de habitat protegido são conquistas que merecem ser celebradas e defendidas.
O abutre-preto está de volta a Portugal. Cabe-nos garantir que fica.
Referências:
4Vultures – Vulture Conservation Foundation, 2025. LIFE Aegypius Return.
URL: https://4vultures.org/pt/life-aegypius-return/ [Acedido em janeiro de 2026]
4Vultures – Vulture Conservation Foundation, 2025. Progress and results – LIFE Aegypius Return.
URL: https://4vultures.org/pt/life-aegypius-return/project/progress-and-results/ [Acedido em janeiro de 2026]
BoG Environmental Consulting, 2024. O abutre-preto: factos e importância.
URL: https://bog-ec.pt/o-abutre-preto-factos-e-importancia/ [Acedido em janeiro de 2026]
ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, s.d. LIFE “Aegypius Return”.
URL: https://www.icnf.pt/noticias/lifeaegypiusreturn [Acedido em janeiro de 2026]
LPN – Liga para a Protecção da Natureza, 2025. População de abutre-preto cresce timidamente em 2025.
URL: https://www.lpn.pt/pt/noticias/populacao-de-abutre-preto-cresce-timidamente-em-2025 [Acedido em janeiro de 2026]
Terra Nova, 2025. Projeto LIFE analisa evolução da população de abutre-preto.
URL: https://terranova.pt/noticias/praca/projeto-life-analisa-evolucao-da-populacao-de-abutre-preto [Acedido em janeiro de 2026]
Wilder, 2025. Este ano há entre 119 e 126 casais de abutre-preto em Portugal.
URL: https://wilder.pt/historias/este-ano-ha-entre-119-e-126-casais-de-abutre-preto-em-portugal [Acedido em janeiro de 2026]