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    Smart Cities na Europa, as Estratégias, Políticas e Tendências Emergentes

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    Smart Cities na Europa, as Estratégias, Políticas e Tendências Emergentes

    Na semana passada, explorámos o panorama das cidades inteligentes em Portugal, destacando iniciativas como o projeto Route 25 no Fundão, a Plataforma de Gestão Inteligente de Lisboa e o enquadramento da Estratégia Nacional de Territórios Inteligentes (ENTI).

    Sabemos que Portugal está a construir um ecossistema crescente de inovação urbana, mas também que enfrenta desafios comuns de interoperabilidade, financiamento e competências técnicas.

    Estes desafios não são exclusivos ao nosso país. Por toda a Europa, cidades de diferentes dimensões estão a enfrentar desafios semelhantes: como conciliar ambição tecnológica com recursos limitados? Como garantir que a transformação digital serve todos os cidadãos e não apenas populações urbanas? Como transformar projetos-piloto dispersos em estratégias integradas de longo prazo?

    A União Europeia tem vindo a desenvolver políticas ambiciosas para responder a estas questões, investindo centenas de milhões de euros em programas que conectam cidades, desenvolvem infraestruturas digitais comuns e promovem soluções replicáveis.

     

    A Missão Europeia para Cidades Climaticamente Neutras

    Uma das iniciativas mais marcantes é a EU Mission: Climate-Neutral and Smart Cities, lançada no âmbito do Horizonte Europa, que estabeleceu como objetivo apoiar 100 cidades europeias a alcançar a neutralidade climática e a inteligência urbana até 2030, funcionando como centro de testes e inovação que permitirão a todas as cidades europeias seguir o mesmo caminho até 2050.

    Desde abril de 2023, 103 cidades receberam o EU Mission Label após avaliação rigorosa conduzida pelo Banco Europeu de Investimento (BEI) e pelo Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia, conferindo acesso ao Climate City Capital Hub, uma plataforma lançada em junho de 2024 que fornece aconselhamento financeiro personalizado e conecta cidades com investidores privados.

     

    Figura 1 – O financiamento anual da Missão ronda os 120 milhões de euros através do Horizonte Europa, oferecendo às cidades apoio prático através da Plataforma NetZeroCities. Fonte: Zaragoza Noticias, 2023.

     

    Este modelo combina financiamento direto, assistência técnica e acesso a investimento privado, reconhecendo que a transição para cidades climaticamente neutras exige mobilização de capital muito superior ao que fundos públicos europeus ou nacionais podem fornecer sozinhos.

     

    CitiVerse e a Revolução dos Gémeos Digitais

    Paralelamente, uma das tendências mais marcantes em cidades inteligentes na Europa é a aposta em gémeos digitais locais (local digital twins), modelos virtuais de cidades que utilizam dados em tempo real e inteligência artificial para simular o impacto de decisões urbanas antes da sua implementação.

    Em 2025, a Comissão Europeia lançou oficialmente o CitiVerse, um Consórcio Europeu de Infraestruturas Digitais (EDIC) dedicado ao desenvolvimento e interligação de gémeos digitais urbanos em toda a Europa, envolvendo 14 países incluindo Portugal e representando um investimento superior a 80 milhões de euros através do programa Europa Digital.

    O CitiVerse prevê integrar cerca de 100 cidades europeias numa plataforma colaborativa nos próximos dois anos, facilitando a partilha de soluções, o desenvolvimento de ferramentas digitais locais e o reforço de parcerias industriais.

     

    Figura 2 – Através destes modelos virtuais, será possível prever efeitos de alterações urbanas no tráfego, poluição, ruído, consumo energético ou fenómenos extremos como inundações, permitindo que autoridades e cidadãos tomem decisões mais informadas e eficazes. Fonte de Imagem: Banco de Imagens Freepik.

     

    A Comissão Europeia está também a desenvolver um conjunto de instrumentos da UE para gémeos digitais locais, uma coleção de ferramentas reutilizáveis, arquiteturas de referência, normas abertas e especificações técnicas concebidas para ajudar comunidades e cidades a criar gémeos digitais baseados em IA.

    Estes gémeos digitais usam inteligência artificial para prever como as mudanças numa cidade podem afetar aspetos como tráfego, poluição ou saúde pública, e podem ser utilizados tanto para gestão em tempo real (responder a emergências, gerir fluxo de tráfego) como para planeamento de longo prazo (desenvolvimento de novos sistemas de transporte, luta contra alterações climáticas). O CitiVerse ligará os gémeos digitais locais existentes em toda a Europa através da gestão coordenada e implantação de infraestruturas digitais comuns da UE, permitindo a simulação e visualização de projetos que abordam desafios do mundo real como poluição do ar, congestionamento, otimização da rede energética e gestão de água e resíduos.

     

    Exemplos Europeus na Vanguarda

    Várias cidades europeias estão já na vanguarda da implementação destas tecnologias, oferecendo lições valiosas sobre o que funciona e quais os obstáculos a superar. No Reino Unido, a cidade de Cambridge desenvolveu um gémeo digital que ajuda a gerir o tráfego urbano com maior eficiência, usando dados em tempo real para prever congestionamentos e sugerir rotas alternativas aos motoristas, o que reduziu significativamente os tempos de viagem e melhorou a qualidade do ar em áreas congestionadas.

    Em várias cidades do norte da Europa, os gémeos digitais estão a ser utilizados para simular cenários de inundações e ajustar infraestruturas de drenagem antes que eventos climáticos extremos ocorram, demonstrando o potencial desta tecnologia para aumentar a resiliência urbana face às alterações climáticas.

     

    Instrumentos de Financiamento Europeu

    O financiamento é frequentemente identificado como um dos principais obstáculos à adoção de soluções inteligentes nas cidades europeias, mas a União Europeia disponibiliza múltiplos instrumentos que, embora complexos e exigentes em termos de candidatura e execução, oferecem recursos significativos. Além do Horizonte Europa e da Missão Cidades Climaticamente Neutras, o programa Europa Digital foca-se em infraestruturas digitais, incluindo o financiamento do CitiVerse e de outros consórcios de infraestruturas digitais europeias.

     

    Figura 3 – A Iniciativa Urbana Europeia (EUI) é um instrumento da UE gerido pela Direção-Geral da Política Regional que financia projetos inovadores desenvolvidos por cidades, promovendo experimentação, partilha de conhecimento e transferência de boas práticas.

     

    O programa URBACT, por exemplo, apoia redes de cidades que desejam transferir para os seus contextos locais uma das 116 boas práticas identificadas, com orçamentos totais que podem atingir 750 000 euros por rede de transferência.

    Um estudo de 2023, conduzido pela Opinion Matters em dez países europeus e que auscultou 550 especialistas em cidades com responsabilidades tecnológicas e de inovação, concluiu que sete em cada dez cidades europeias preveem investir em soluções inteligentes no futuro, com mais de metade (52%) a planear gastar entre dois e dez milhões de euros durante os próximos três anos.

    Em Portugal, 66% dos inquiridos afirmaram que o país já iniciou a sua jornada de transformação digital para cidades inteligentes, e 80% consideram que as autoridades locais valorizam as soluções inteligentes.

     

    Desafios que Persistem

    Apesar destes sinais positivos, o mesmo estudo identificou obstáculos significativos que colocam em risco as metas da Comissão Europeia para cidades inteligentes: falta de financiamento adequado, fragmentação de projetos sem visão estratégica integrada, carência de literacia e competências digitais tanto em técnicos como em cidadãos, e ausência de infraestruturas de conectividade de alta qualidade em muitas regiões periféricas e cidades de menor dimensão.

    Um relatório especial do Tribunal de Contas Europeu de 2023 sobre cidades inteligentes alertou também para riscos de desperdício de fundos europeus em projetos que não conseguem demonstrar impacte mensurável, replicabilidade ou sustentabilidade financeira após o término do financiamento inicial, recomendando maior rigor na seleção de projetos, indicadores de desempenho claros e mecanismos de monitorização mais eficazes.

     

    Tendências Emergentes para o Futuro

    Olhando para o futuro próximo, várias tendências estão a moldar a próxima geração de cidades inteligentes europeias. Além dos gémeos digitais, está a emergir o uso de inteligência artificial generativa para apoiar decisões urbanísticas, simular cenários complexos e personalizar serviços aos cidadãos, com a UE a desenvolver programas de formação em IA especificamente dirigidos a técnicos municipais.

    A Comissão Europeia está a promover ativamente o desenvolvimento de normas abertas e especificações técnicas comuns para garantir que sistemas de diferentes cidades e fornecedores possam comunicar entre si, com o CitiVerse e outros consórcios a funcionarem como plataformas de harmonização técnica.

    A dimensão ambiental está cada vez mais integrada na definição de “cidade inteligente”, com o reconhecimento de que não basta otimizar serviços, também é preciso demonstrar como a tecnologia contribui para reduzir emissões, melhorar eficiência energética e aumentar resiliência climática.

     

    Europa como Laboratório de Urbanismo Inteligente

    A Europa está a posicionar-se como laboratório global de cidades inteligentes, não pela escala (cidades asiáticas e norte-americanas têm frequentemente mais recursos e maior rapidez de implementação), mas pela abordagem centrada em valores como sustentabilidade, inclusão, proteção de dados e governação democrática.

    O CitiVerse, a Missão para Cidades Climaticamente Neutras e os múltiplos programas de financiamento europeus demonstram que existe vontade política e recursos financeiros significativos para acelerar a transformação digital urbana. Mas o sucesso desta transformação não está garantido e dependerá da capacidade de superar fragmentação, de garantir acesso equitativo a financiamento e tecnologia, de formar competências digitais em larga escala e de manter os cidadãos no centro das decisões.

    Portugal, através da sua participação no CitiVerse, na Missão de Cidades Climaticamente Neutras e na ENTI, tem oportunidade de aprender com as melhores práticas europeias e de contribuir com as suas próprias soluções.

    As cidades portuguesas que já desenvolvem projetos inovadores em mobilidade inteligente, gestão urbana e economia circular podem beneficiar desta rede europeia para acelerar a adoção, aceder a financiamento e posicionar-se como referências internacionais.

    As cidades inteligentes europeias do futuro serão aquelas que conseguirem equilibrar inovação tecnológica com justiça social, eficiência com participação, e dados com direitos. A Europa tem as ferramentas, o financiamento e a visão. Resta executar com ambição, rigor e compromisso de longo prazo.

     

    Referências:

    Andina Link Smart Cities, 2024. Gêmeos digitais transformam cidades inteligentes.
    URL: https://www.andinalinksmartcities.com/gemeos-digitais-transformam-cidades-inteligentes/ [Acedido em fevereiro de 2026]

    Comissão Europeia, 2025. Cidades e comunidades inteligentes.
    URL: https://digital-strategy.ec.europa.eu/pt/policies/smart-cities-and-communities [Acedido em fevereiro de 2026]

    Compete 2030, 2025. Smart cities ganham impulso com novo consórcio europeu.
    URL: https://www.compete2030.gov.pt/comunicacao/smart-cities-ganham-impulso-com-novo-consorcio-europeu/ [Acedido em fevereiro de 2026]

    EU Funding Portal, 2025. Smart city grants.
    URL: https://eufundingportal.eu/tag/smart-cities/ [Acedido em fevereiro de 2026]

    Indústria de Veículos e Áreas Verdes, 2025. Portugal participa em projeto europeu que promove cidades inteligentes com IA.
    URL: https://industriaveiculoseareasverdes.com/2025/02/11/portugal-participa-em-projeto-europeu-que-promove-cidades-inteligentes-com-ia/ [Acedido em fevereiro de 2026]

    The Briefing, 2023. Estão as metas da Comissão Europeia para as smart cities em risco?
    URL: https://www.briefing.pt/2050/estao-as-metas-da-comissao-europeia-para-as-smart-cities-em-risco/ [Acedido em fevereiro de 2026]

    Tribunal de Contas Europeu, 2023. Relatório Especial 24/2023: Cidades inteligentes.
    URL: https://www.eca.europa.eu/ECAPublications/SR-2023-24/SR-2023-24_PT.pdf [Acedido em fevereiro de 2026]