Entrevista a Patrícia Fortes: os desafios da transição climática em Portugal
No artigo do blog desta semana, trazemos uma entrevista a Patrícia Fortes sobre a transição climática em Portugal e os desafios de transformar metas de descarbonização em mudanças reais no território, na energia, nos transportes e na indústria.
Patrícia Fortes é investigadora no LNEG – Laboratório Nacional de Energia e Geologia e investigadora convidada da NOVA School of Science and Technology.
O seu trabalho centra-se na transição para sistemas energéticos de baixo carbono, no papel de novos vectores energéticos e na vulnerabilidade do sistema energético às alterações climáticas.
Com mais de 15 anos de experiência em modelação de sistemas energéticos, Patrícia Fortes participou na construção de cenários de descarbonização no Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050, tendo estado também ligada ao desenvolvimento do Plano Nacional Energia-Clima 2030.
No âmbito desta entrevista para o blog da BoG, falámos sobre as interdependências da transição climática em Portugal, os bloqueios à implementação, o papel do território e os sinais que podem mostrar se o país está, ou não, numa trajetória coerente com a neutralidade climática.

1. A descarbonização é muitas vezes apresentada setor a setor, mas os modelos de transição mostram ligações fortes entre energia, transportes, indústria e uso do solo. Na sua perspetiva, que interdependências são mais decisivas em Portugal e continuam subestimadas no debate público?
Na perspetiva de Patrícia Fortes, a interdependência entre setores é total. Qualquer decisão tomada num setor afeta inevitavelmente os outros, sobretudo no sistema energético, onde a eletrificação, os custos da energia e a disponibilidade de recursos têm efeitos em cadeia sobre a indústria, os transportes e outros consumos.
Um dos aspetos que considera mais subestimados no debate público é o ordenamento do território. A forma como o território está organizado condiciona fortemente, por exemplo, a mobilidade e os transportes, influenciando os consumos de energia e as emissões associadas, especialmente num setor que continua a ser um dos mais preocupantes em Portugal. Outros aspetos são os conflitos no uso do solo que podem ser lidos na pergunta 3.
A investigadora destaca ainda a competição pelos mesmos recursos. Deu como exemplo o biometano: vários roteiros setoriais apontam para a sua utilização, mas o potencial disponível pode não ser suficiente para responder a todas as expectativas, o que exige uma análise concertada entre setores, em vez de abordagens isoladas.
Também na eletrificação esta visão integrada é essencial. O aumento das renováveis e a eletrificação de vários setores criam pressão adicional sobre o sistema elétrico, o que obriga a pensar em conjunto na capacidade de produção, no armazenamento e na flexibilidade da procura.
2. Quando se analisam trajetórias realistas para Portugal até 2050, o que costuma fazer mais diferença: inovação tecnológica, eficiência ou redução da procura e mudança de comportamentos?
Para Patrícia Fortes, as três dimensões são necessárias, mas devem ser pensadas como uma sequência. O primeiro passo deve ser a redução da procura, sobretudo da procura supérflua, isto é, consumos que podem ser evitados ou reduzidos através de melhor gestão, melhoria de processos ou alterações de comportamento.
Depois surge a eficiência energética, frequentemente descrita como a “tecnologia zero”. A lógica é simples: satisfazer os mesmos serviços de energia com menos consumo de energia, muitas vezes através de soluções que são também economicamente mais vantajosas.
Só depois entra com mais força a dimensão tecnológica, nomeadamente a substituição de combustíveis fósseis por renováveis e por eletricidade de base renovável. Ainda assim, sublinha que não faz sentido escolher apenas uma destas vias: a descarbonização exige redução da procura, eficiência e inovação tecnológica em conjunto.
3. No debate climático fala-se muito em novas infraestruturas, mas menos em organização do território. Que decisões territoriais podem ter maior impacto estrutural na redução de emissões ao longo das próximas décadas?
Uma das decisões mais relevantes passa por planear antecipadamente onde localizar novas infraestruturas renováveis. Para Patrícia Fortes, não basta olhar apenas para a disponibilidade do recurso, como o vento ou o sol; é também necessário considerar conflitos de uso do solo, impactos cumulativos e os locais com menor impacto ambiental.
Neste contexto, a identificação de áreas mais adequadas para renováveis pode ajudar a acelerar licenciamentos e a reduzir conflitos. Mas esse planeamento territorial tem de ser articulado com a rede elétrica, com o armazenamento e com o reforço das infraestruturas necessárias à eletrificação da economia.
Outro ponto central é a adaptação às alterações climáticas. Novas infraestruturas devem ser pensadas tendo em conta riscos como cheias ou incêndios, evitando a sua instalação em locais vulneráveis e reforçando a sua resiliência.
Patrícia Fortes chama ainda a atenção para a organização urbana. Quando emprego, serviços e habitação ficam territorialmente desarticulados, aumenta a dependência da mobilidade quotidiana e, com isso, as emissões do setor dos transportes.
Por fim, destaca a gestão florestal e agroflorestal como parte integrante desta discussão. O território não deve ser pensado apenas como suporte físico para infraestruturas, mas também como elemento decisivo na capacidade de reduzir emissões e reforçar sumidouros naturais.
4. Há setores onde continuarão a existir emissões residuais. Que papel é realisticamente aceitável atribuir aos sumidouros naturais e onde começa o risco de usar compensações como substituto da redução na fonte?
A posição expressa por Patrícia Fortes é clara: sumidouros naturais e compensações só devem ter um papel complementar. Nunca devem ser usados como substituto da redução de emissões na fonte, nem como justificação para continuar a emitir com base em promessas futuras de captura ou compensação.
No caso português, refere que o papel da floresta foi, em momentos anteriores, sobrestimado em alguns cenários. Segundo a sua leitura, estudos mais recentes apontam para um contributo mais limitado da floresta portuguesa, sobretudo devido ao agravamento das alterações climáticas, ao risco crescente de incêndio e ao envelhecimento de parte da mancha florestal.
A investigadora lembra ainda que, em anos de incêndios severos, a floresta pode deixar de funcionar como sumidouro e passar a ser emissora. Por isso, sem uma mudança profunda na política de gestão florestal, considera pouco realista atribuir-lhe um papel muito significativo no equilíbrio final da neutralidade climática.
5. Portugal já tem instrumentos de planeamento e avaliação ambiental. O problema está mais na falta de instrumentos ou na forma como eles são aplicados? Onde identifica hoje os principais bloqueios técnicos ou institucionais?
Na leitura de Patrícia Fortes, Portugal já dispõe de vários instrumentos estratégicos e de enquadramento, pelo que o problema não parece estar tanto na ausência de instrumentos, mas mais na sua aplicação. O principal bloqueio está, segundo refere, na falta de articulação entre medidas, programas e apoios.
A investigadora aponta também para a instabilidade de alguns mecanismos de apoio. Há instrumentos que surgem, desaparecem, mudam de regras ou não têm continuidade suficientemente clara, o que dificulta a adesão e reduz a previsibilidade para famílias e agentes económicos.
Outro entrave identificado é a falta de capacidade técnica e de recursos humanos para operacionalizar muitas dessas medidas. A isto soma-se a burocracia administrativa, que torna os instrumentos menos acessíveis e menos percetíveis para a população em geral.
Na prática, a conclusão é que o desafio está menos em criar novos instrumentos e mais em garantir coerência, estabilidade, simplificação e capacidade de execução.
6. Quando se olha para os próximos anos, quais seriam os sinais de que Portugal está mesmo numa trajetória coerente com a neutralidade climática, e quais seriam os sinais de desvio?
Entre os sinais positivos, Patrícia Fortes destaca o aumento das renováveis em Portugal, a redução da dependência energética e a redução da intensidade energética. A estes indicadores junta-se também o avanço da eletrificação, que pode ser um sinal relevante de transformação estrutural quando é acompanhado por reforço do sistema elétrico.
Do lado dos alertas, o principal foco está nos transportes. Na entrevista, identifica este setor como o atual “calcanhar de Aquiles” da descarbonização nacional, precisamente porque as suas emissões não estão a diminuir ao ritmo necessário.
Assim, para avaliar a coerência da trajetória portuguesa, será decisivo observar se a mobilidade começa finalmente a dar sinais robustos de mudança. Se isso não acontecer, haverá um desfasamento crescente entre o progresso nalguns setores e a ambição global de neutralidade climática.
Referência
Este artigo foi elaborado com base numa entrevista realizada pela BoG a Patrícia Fortes, sendo o conteúdo recolhido e adaptado a partir desse material. A nota biográfica da entrevistada foi redigida pela própria.