Que Indicadores de Circularidade Existem?
A economia circular propõe uma nova estrutura para o atual modelo económico linear de “extrair, usar e descartar”, substituindo-o por uma lógica de ciclos fechados onde os recursos são reutilizados, reparados e reciclados, numa tentativa de prolongar o seu tempo de vida útil.
Mas como sabemos se estamos realmente a avançar nessa direção?
A resposta está nos indicadores de circularidade e, no caso de Portugal, o diagnóstico é claro: ainda há muito caminho por percorrer. No post de hoje iremos explorar os vários indicadores que existem e em que ponto de situação estaremos como país.
O que Portugal está hoje a medir
Atualmente, os indicadores de circularidade monitorizados em Portugal são essencialmente os que o EUROSTAT obriga todos os Estados-membros a reportar.
Uma análise ao portal do INE, na categoria “Economia Circular“, revela que medimos o fluxo de materiais, isto é, o consumo interno de materiais, a pegada material, entendida como a quantidade de material extraído da natureza para produzir os bens consumidos no país, a taxa de utilização circular de materiais, que mede a percentagem de materiais reciclados reintroduzidos na economia, a recolha seletiva e a taxa de reciclagem de resíduos sólidos urbanos, embalagens e equipamentos elétricos e eletrónicos, bem como o desperdício alimentar em toneladas e per capita.

Figura 1 – O problema fundamental é que estes indicadores medem sobretudo o que acontece no fim do ciclo de vida dos produtos, ou seja, a reciclagem e a recolha de resíduos, e não a circularidade real da economia. Banco de Imagens Freepik.
O primeiro Plano de Ação para a Economia Circular, o PAEC 2017-2020, não se diferenciou muito desta lógica, tendo apresentado indicadores praticamente idênticos aos do sistema estatístico nacional.
O balanço geral desse período foi uma tendência negativa na maioria dos indicadores, com destaque para a produção de resíduos sólidos urbanos e a taxa de reciclagem. Monitorizar apenas a reciclagem é como avaliar a saúde de uma pessoa medindo apenas a quantidade de medicamentos que toma: é útil, mas não diz quase nada sobre o estado real do sistema.
A taxa de utilização circular de materiais em Portugal
Em 2023, a taxa de utilização circular de materiais em Portugal foi de apenas 2,8%, o que representa uma descida de 0,5 pontos percentuais face ao valor registado em 2022. Este resultado coloca Portugal muito distante da média da UE-27, que se situou nos 11,8% no mesmo ano, tornando o país um dos quatro piores desempenhos de toda a União Europeia neste indicador.
Na prática, este número significa que mais de 97% dos materiais que entram na economia portuguesa seguem ainda um percurso linear: são produzidos, utilizados e descartados, acabando em aterro, sendo incinerados ou simplesmente abandonados, sem nunca regressar ao ciclo produtivo como matéria-prima secundária.
A produtividade de recursos, isto é, o valor económico gerado por cada unidade de material consumido, mantém-se igualmente afastada da média europeia. Em termos práticos, isto significa que a economia portuguesa continua a precisar de uma quantidade relativamente elevada de recursos naturais para gerar uma unidade de riqueza, o que revela que a dissociação entre o consumo de recursos e o crescimento económico é ainda muito limitada. Enquanto nos países com melhores desempenhos esta dissociação é cada vez mais visível, em Portugal o crescimento económico continua a andar a par com o aumento do consumo de materiais.
O que os indicadores atuais não conseguem capturar
A verdadeira circularidade de uma economia não se mede apenas pela reciclagem. Os chamados R’s da economia circular, reduzir, reutilizar, reparar, remanufaturar, reciclar, têm impactos ambientais e económicos muito diferentes entre si, e os indicadores atuais ignoram precisamente os mais importantes: aqueles que acontecem antes do resíduo existir.
Entre os indicadores que Portugal ainda não monitoriza de forma sistemática estão a taxa de preparação para reutilização, que chegou a ser equacionada politicamente, mas nunca chegou a ser implementada, a duração de vida útil dos produtos, o conteúdo reciclado incorporado em novos produtos e a intensidade de materiais por unidade de valor económico gerado.

Figura 2 – Sem estes dados, é impossível saber se a economia está verdadeiramente a tornar-se mais circular ou se nos estamos a limitar a gerir melhor os resíduos que continuamos a produzir ao mesmo ritmo. Banco de Imagens Freepik.
O que se faz fora de Portugal
A nível europeu, a Comissão Europeia definiu desde 2018 um quadro de monitorização para a economia circular estruturado em quatro dimensões: produção e consumo, gestão de resíduos, matérias-primas secundárias, e competitividade e inovação. Este quadro é mais ambicioso do que o sistema português, ainda que também seja frequentemente criticado por se concentrar demasiado nos fluxos de resíduos.
Ao nível empresarial, destaca-se o trabalho do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), que desenvolveu os Indicadores de Transição Circular, uma ferramenta criada por empresas para empresas, transversal a todos os setores e cadeias de valor, que inclui indicadores sobre circularidade da água, desempenho financeiro e bioeconomia.
Em Portugal, o BCSD Portugal lançou a versão portuguesa desta ferramenta, que já está a ser testada por empresas nacionais como instrumento de diagnóstico e melhoria contínua.
O PAEC 2030: uma oportunidade que não pode ser desperdiçada
Em fevereiro de 2026, Portugal aprovou o Plano de Ação para a Economia Circular 2030, descrito como um passo importante para estruturar a transição circular até ao final da década, com ações a três níveis: macro, meso e micro. Este novo plano é aguardado com expectativa precisamente para perceber se introduz verdadeiros indicadores de circularidade ou se reproduz, uma vez mais, os indicadores de gestão de resíduos que já existem.
Para que o PAEC 2030 represente uma ruptura real, os especialistas identificam três requisitos essenciais: ambição na escolha dos indicadores e na definição de metas concretas e mensuráveis; rede, ou seja, capacidade de recolher dados junto de múltiplos atores com o apoio de organizações ou confederações setoriais; e motivação, através da análise de casos europeus de sucesso, identificando os fatores críticos e adaptando as aprendizagens à realidade portuguesa.
Medir é a base de tudo
A economia circular não avança sem dados. E dados relevantes não são apenas os que medem o fim do ciclo, são os que iluminam o início e o meio: como os produtos são concebidos, quanto tempo duram, quantas vezes mudam de mãos antes de se tornarem resíduo, e que proporção dos materiais volta a entrar na economia.
Portugal tem as ferramentas legislativas, como por exemplo a Lei de Bases do Clima, o PAEC 2030 e o alinhamento com os regulamentos europeus, mas precisa de as preencher com monitorização. Sem indicadores que capturem a circularidade efetiva da economia, continuaremos a confundir reciclagem com transição e a ilusão de progresso pode ser o maior obstáculo à mudança efetiva de paradigma.
Referências:
Circular Economy Portugal. (2026). Indicadores de Circularidade – Cenário atual cá e fora.
Disponível em: https://circulareconomy.pt/indicadores-de-circularidade-cenario-atual-ca-e-fora/ [Acedido em março de 2026]
Agência Portuguesa do Ambiente. (2025). Economia circular – recursos materiais. Relatório do Estado do Ambiente.
Disponível em: https://rea.apambiente.pt/content/economia-circular-recursos-materiais [Acedido em março de 2026]
BCSD Portugal / WBCSD. (2021). Indicadores de Transição Circular V2.0.
Disponível em: https://bcsdportugal.org/wp-content/uploads/2021/03/CTI_2_BCSD_VF.pdf [Acedido em março de 2026]
CIP – Confederação Empresarial de Portugal. (2022). Empresas + Circulares – Guia de Boas Práticas.
Disponível em: https://cip.org.pt/wp-content/uploads/2022/02/EC-Guia-Boas-Praticas.pdf [Acedido em março de 2026]
GreenSavers / Sapo. (2026). Economia Circular: Novo plano é “passo importante”, mas sucesso depende de implementação efetiva.
Disponível em: https://greensavers.sapo.pt [Acedido em março de 2026]
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